Vídeos que circulam nas redes sociais desde quinta-feira (5) mostram multidões nas ruas do Haiti após a chegada de mais de 2 mil soldados enviados por El Salvador para enfrentar as gangues do país. Um dos vídeos mais compartilhados, publicado pelo perfil UHN Plus, mostra uma rua tomada por pessoas e afirma que os haitianos comemoram porque as gangues “estão escondidas”. O Âncora não conseguiu confirmar de forma independente o local exato e o contexto dessas imagens.
O próprio presidente salvadorenho, Nayib Bukele, divulgou vídeos de militares do país patrulhando as ruas de Porto Príncipe, recebidos com aplausos por moradores da capital haitiana, segundo o jornal salvadorenho El Mundo. Na quarta-feira (4), Bukele escreveu no X: “Parece que as gangues não querem lutar conosco”.
Por que as tropas foram ao Haiti
O envio foi uma resposta ao ataque de 18 de outubro, quando quatro técnicos de aviação salvadorenhos que serviam na Força de Supressão de Gangues (GSF, na sigla em inglês), a missão internacional apoiada pela ONU, foram emboscados e levados por grupos armados na região de Croix-des-Bouquets, nos arredores de Porto Príncipe. O envio das tropas começou poucos dias depois, ainda em outubro.
El Salvador já participava da missão desde janeiro de 2025, em funções sem combate, e tinha ao menos 124 militares no Haiti em outubro. Em 29 de setembro, a Assembleia Legislativa salvadorenha prorrogou essa participação até outubro de 2027. O novo contingente é o maior enviado por um único país ao Haiti desde o fim da missão de paz da ONU (Minustah), em 2017, segundo a agência EFE.
Operações e o paradeiro dos técnicos
Na terça-feira (3), Bukele afirmou que helicópteros salvadorenhos atacaram gangues que cercavam soldados do Chade que integram a GSF, de acordo com a Infobae. “As gangues já não têm a vantagem”, escreveu. No mesmo dia, a polícia haitiana encontrou, no bairro de Santo, em Croix-des-Bouquets, os restos queimados de uma caminhonete que, segundo as autoridades, era usada pelos quatro técnicos, informou a Al Jazeera. Os militares continuam desaparecidos.
Diante da ofensiva, Wilson Joseph, líder da gangue 400 Mawozo, uma das mais violentas do país, enviou carta ao secretário-geral da ONU, António Guterres, pedindo uma delegação para mediar negociações de paz, segundo a Bloomberg. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apoiou o envio das tropas, de acordo com o site Semafor.
Governo haitiano, ONU e críticas
O primeiro-ministro do Haiti, Alix Didier Fils-Aimé, afirmou que as forças estrangeiras “não vieram substituir o Estado”, mas apoiá-lo, e que atuam sob autoridade haitiana. Já o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, disse que apenas cerca de 200 soldados salvadorenhos estão sob a jurisdição da GSF e que a operação é um assunto bilateral entre os dois países. Ele cobrou respeito ao direito internacional e aos direitos humanos.
A ação também enfrenta críticas. A organização Médicos Sem Fronteiras relatou 30 feridos, incluindo mulheres e crianças, por tiros e explosões de drones nos oito dias seguintes a 18 de outubro. A entidade haitiana UNA-Haití denunciou mortes de civis atribuídas aos soldados salvadorenhos, acusação que Bukele nega. Um especialista do Council on Foreign Relations ouvido pela Reuters avaliou que o cenário aponta para uma escalada da violência, e não para estabilização.
O Haiti não tem governo eleito desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021. As eleições, previstas para 13 de dezembro, foram adiadas: o primeiro turno passou para 18 de julho de 2027.
Com informações de El Mundo (El Salvador), Infobae, Al Jazeera, Bloomberg, Semafor, EFE e Haitian Times.
